Saltei da cama com o estimulo do pequeno-almoço feito por terceiros e pronto a consumir. As primeiras horas do dia passaram-se em busca de alguém do poder local a quem apresentar propostas culturais. Depois de uma passagem rápida na biblioteca fomos almoçar CARNE da região. Porco, vaca, enchidos tudo na mesma refeição.
À tarde comecei por ter um encontro rápido com os responsáveis pela oferta cultural aos cidadãos e à saída reparei nos comboios antigos que se avizinhavam da estação extinta onde agora moram os serviços sócio-culturais camarários. Fui-me aproximando à medida que fotografava até que uma voz me diz para estar à vontade e visitar o interior da antiga gare. Passado pouco tempo ouvia na primeira pessoa a luta que desde 1990 se deu entre ferroviários e o poder local. Segundo me contaram, já em 1985 os autarcas assinaram um protocolo com o poder central em que se comprometiam a fechar as vias férreas a favor da construção de uma via rápida (assim se chamavam na altura as auto-estradas) que unia as principais cidades do interior. O que se passou cinco anos depois é que os caminhos de ferro foram extinguindo linhas e a estrada não apareceu. As empresas de autocarros foram florescendo à custa disso e a população perdia acesso ao exterior. Todas as propostas de turismo ferroviário foram negadas pelo poder local e a própria C.P. foi chantageada de forma a não aceitar nenhum plano turístico que reabilitasse os comboios. Chegaram a prometer fazer ciclovias numa zona toda ela montanhosa no local das linhas para inviabilizar os projectos e no fim o que ficou foi um museu com 3 carruagens anteriores a 1920 e um vagão dos correios. O museu que falo só abre às quintas-feiras e fecha às 17h, hora em que já falávamos do fracasso do 25 de Abril e me contavam como foram esses tempo em Trás-os-Montes.
De lá segui para a biblioteca e da biblioteca voltei para o quarto. Adormeci e só com um telefonema da D. Gemina me levantei e corri para as termas onde tinha combinado com ela e com os meus pais. Das termas à Quinta de Samaiões são 5 minutos de carro. É uma quinta brasonada, transformada em hotel rural e restaurante. Toda a decoração e re-construção está feita com bom gosto. Quadros do Mário Lino alegram a sala sóbria pela pedra e madeira. O jantar estava divinal e o vinho de Valpaços nunca me desiludirá. A D. Gemina contou de novo algumas das suas histórias e aconselhou, partilhou receitas naturais, deu conselhos, recitou poemas dela e da tradição popular. Realmente a vida dela daria uma série muito boa ou uma novela muito má. Quem sabe se não será um projecto a seguir.
Acabado o jantar conduziu-nos ao Shiva Bar, um espaço repleto de estátuas indianas provenientes de Espinho, com chás e outros ingredientes orientais. A música e a televisão contrastavam com o local e os clientes nada tinham de espirituais.
Falei toda a noite com a D. Gemina, falou-me dos elementos curativos do vinagre, do eucalipto macho (cuja folha em forma de espada é diferente da fêmea mais redonda na ponta), da salsa e da sabedoria popular que antes da tecnologia chegar já poupava vidas, permitindo a sobrevivência das populações.
Saímos do bar às 2 da manhã, eu já bocejava sem posição em cima dos bancos mais desconfortáveis da região e sonhava com esta cama que agora me agracia com uma insónia fatigada.
Sinto-me ligeiramente só. Adiei a partida para sábado. Afinal não é todos os dias que se está em Chaves.